1 de Outubro de 2013

Deixar Madrid atrás esta-nos custando muito mais do que podia pensar, o tráfego intenso converte a estrada de Andaluzia num caminho viscoso e peganhento no que custa avançar. Mas não é só isso, nada nesta viagem está a sair segundo o plano inicial, vamos com dois dias de atraso e saímos já entrada a tarde pelo que a ideia de chegar cedo a Granada para conhecer um bocado a cidade vai-se limitar a uma parada unicamente para dormir.
Mas assim é a aventura, há que deixar os planos atrás e continuar improvisando.

Aos poucos vamos deixando a congestão da cidade e atravessamos a zona industrial do sul de Madrid, que passeninhamente se converte num mar de ondas suaves pardas e amarelas, que da passo a imensa chaira castelhana.
A emoção de começar a viagem pode mais que nada e devagar vamos devorando kilómetros, pequena parada para reabastecer combustível e primeiras fotos, e volta a cabalo da Capitana para seguir rodando.

A tomar um grolo

Levamos já mais de duas horas e começamos a ter fame, vejo indicado o desvio de Valdepeñas, um sítio tão bom como qualquer outro. A pequena cidade, bem conhecida pelo seu vinho, converte-se num labirinto de pequenas ruas perpendiculares, algumas das quais cortadas por obras para acabar de desorientar-nos. Já perdido decido virar à esquerda quando aparece da nada um carro justo na direcção oposta, instintivamente aperto os freios, o que nos leva sem remédio ao chão. Já começamos com isto e ainda nem saímos de Castela, como será em África!
A queda não tem consequências mais aló dos danos morais do piloto, que venho sendo eu. Aproveitando a “parada” decidimos perguntar por um supermercado para comprarmos víveres e recuperar forças, indicam-nos o caminho a um grande hipermercado duma conhecida multinacional francesa, o qual depois de outra rolda de voltas pela cidade ainda nos perguntamos onde pode estar.
Já cansos e visto o pouco êxito das nossas tentativas, consideramos que o melhor que podemos fazer e deixar de perder o tempo lá e continuar até outra vila.

Só uns 20 minutos mais tarde chegamos a Santa Cruz de Mudela, uma vila mais pequena, mais tranquila, com o seu pequeno supermercado onde compramos o justo para fazer uns sanduíches. Descobrimos a praça da vila, ateigada de nenos a jogar e vizinhos a socializar e passar a tarde, um lugar ideal para a nossa ceia. Quase sem nos decatar vai chegando a noite e junto à luz do sol marcha a ideia de fazer noite em Granada, o melhor será dormir aqui e continuar viagem amanhã bem cedo. O dito, melhor não fazer planos.

Depois de descartar um hotel no centro da vila que nos queria roubar cobrar 50€ por uma noite acabamos num algo mais barato chamado Hostal Castilla mas que, a saber por quê, os vizinhos conhecem pelo nome de Falcon Crest.

 

2 de Outubro de 2013

O som do despertador saca-nos do sono reparador para trazer-nos de volta ao mundo real, são as 6:00 am. De seguida nos pomos em marcha continuando direcção sul, ainda não saiu o sol e avançamos entre uma brêtema mesta que nos limita a visão e nos castiga com o seu frio húmido até fazer-nos parar para abrigar-nos adequadamente.

O cheiro característico das vides e das vinícolas intercala-se com o aroma das oliveiras e, por vezes, o de madeira queimada. Quase sem dar-nos conta e com as primeiras luzes do dia entramos em Andaluzia. É hora de aquentar o corpo com um bom café. O lugar escolhido é uma simples área de serviço, com a sua gasolineira, o seu restaurante e a sua cafetaria; nesta última conhecemos a Raimundo, proprietário do negócio e apaixonado das motos que se interessa pela nossa viagem e nos amostra fotos da sua BMW e dos lugares até onde chegou com ela junto com a sua mulher, não hesita em dar-nos o seu contacto para que lhe relatemos a nossa aventura e anima-nos, logicamente, a voltar quando queiramos.

Segundo nos achegamos à parte mais meridional da Europa a paisagem vai-se tornando mais “africana”, as construções, os palmeirais ou a cor da terra delatam que o estreito de Gibraltar não é tanto uma fronteira mas um pequeno salto de auga no que é a continuação duma paisagem que vai mudando progressivamente. A principal diferença a simples vista é a, por vezes, aglomeração e sobre-construção na costa Andaluza: formigão e tijolo por toda parte, restaurantes, campos de golfe, centros comerciais e uma sucessão de cartazes em inglês que afogam e estragam o que seria um lugar formosíssimo de não ser pela cobiça de alguns.

E entre estes pensamentos chega a hora de encher o bandulho; impusemo-nos um orçamento muito apertado pelo que toca visitar de novo o supermercado, aguardamos que uma vez em Marrocos os preços sejam mais baixos e nos permita ter uma comida decente nalgum restaurante ou, pelo menos, comer quente.

Já com novas energias fazemos o último trecho até Algeciras, a porta a um mundo novo para nós. Hoje descansaremos na cidade dos “especiales”, amanhã aguarda África.